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23.6.09
Simonal na Folha: mais luz à discussão
Mário Magalhães, no caderno Mais da Folha do último domingo, traz documentação farta comprovando mais claramente as ligações de Wilson Simonal com a polícia política da ditadura militar. Repetidas vezes Simonal confirma essas ligações e repetidas vezes membros das organizações da repressão reiteram isso. Mandou dar uma surra no ex-gerente de sua empresa, terceirizando a coça justamente com os amiguinhos profissionais da tortura. Foi com eles levar o suspeito até o DOPS. Não há, portanto, injustiça ou malevolência da esquerda, como insinuam os defensores de Simonal, que tenha provocado sua Santa Helena pessoal. Quem a criou foi ele mesmo. Ou será que qualquer um de nós, em sã consciência, de esquerda ou não, ia querer tomar um chope com um ratão notório em plena ditadura? O blog do patético colunista da Veja Reinaldo Azevedo vem com um texto ralo, de título melado -- "Wilson Simonal é Assassinado de Novo" -- batendo na tecla de que ninguém jamais apontou alguém que tivesse sido dedurado pelo cantor. Ora, acho que não precisa, não é? A surra de criar bicho que o funcionário dele recebeu já é sobejamente suficiente para caracterizar o lado em que Simonal transitava. Supondo que não tivesse mesmo dedado ninguém, o entusiasmo com que se declarou parte do esquema clandestino de repressão política já marca uma escolha. A questão é: Simonal foi um cantor estupendo, como se pode ver facilmente em gravações de época e testemunhos de quem viu e ouviu. A indigência da discussão em torno dele está na tentativa de quem o vê como um artista excepcional (Cláudio Manuel e seus parceiros, por exemplo) querer fazer dele um cara bacana, e quem o vê como canalha tentar fazer dele um cantor medíocre. Simonal sai de tudo isso anistiado: nunca se falou tanto dele, o que reverte em discos reeditados e vendidos, novos fãs, debates acalorados. Já a discussão em torno dele continuará pobre, se os debatedores insistirem em manter-se na linha Chapeuzinho Vermelho. 18.6.09
Folguedo lingüístico
Português: O poeta é um fingidor, finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente. Português para espanhol: El poeta es un simulador, pretendiendo como plenamente al pretender que el dolor es el dolor que realmente siente. Espanhol para finlandês: Runoilija on simulaattori, teeskentelee olevansa täysin teeskennellä, että kipu on kipu, joka todella tuntuu. Finlandês para húngaro: A költő egy szimulátor, úgy tett, mintha teljesen úgy, hogy a fájdalom a fájdalom, hogy nagyon fáj. Húngaro para polonês: Poeta w symulatorze, była pełna, więc, że ból ból że naprawdę boli. Polonês para alemão: Poet im Simulator, es war voll, so dass die Magenschmerzen, die wirklich weh tut. Alemão para inglês: Poet in the simulator, it was full, so that the stomach pain that really hurts. Inglês para português: Poeta no simulador, ele estava cheio, de modo que o estômago dor que dói mesmo. Tradutore, traditore. 15.6.09
Atraso galopante
Cena brasileira Somos a vanguarda do atraso, embora tenhamos veleidades de ser "Primeiro Mundo" (como se a própria menção, ou mesmo a simples memória, desse termo já não fosse por si só de uma jequice constrangedora). A ver: *** Na cidade do Salvador, aquela terra tão acolhedora de novas idéias, tão cheia de malemolência e axé, a grande maioria da população, acompanhada da grande maioria dos órgãos de imprensa e seus jornalistas, brada a favor da demolição de uma das obras de arquitetura mais importantes da cidade e do Brasil, o estádio da Fonte Nova, projeto original de Diógenes Rebouças. Para quê? Para que se construa no lugar o estádio que vai receber um dos grupos da Copa do Mundo de 2014. É preciso deixar a cidade enfeitada para receber o pessoal do Primeiro Mundo, onde quer que isso seja. Uma cidade cada vez mais jacu, cheia de gente igualmente jacu, fazendo pose de inteligente. *** Nas maiores cidades do Brasil, motoristas bêbados matam inocentes pelas ruas. É rotina. A última notícia vem de São Paulo, a vítima era uma moça grávida. A notícia anterior veio de Curitiba, e o criminoso embriagado era um deputado estadual, com quatro ou cinco vezes mais pontos na carteira do que o suficiente para suspendê-la. O parlamentar ainda teve a manha de renunciar ao mandato para evitar uma cassação que o impediria de concorrer à reeleição em 2010. Nenhum dos dois, como nenhum dos outros assassinos briacos, será preso. *** Em Brasília, o prócer da integridade no parlamento, senador Pedro Simon, apresenta um projeto de lei que propõe a inelegibilidade de cidadãos sob suspeita de improbidade. Sim, sob suspeita. Repito: sob suspeita. Não há no mundo democrático nada parecido com isso. Não sei se há no Paquistão ou no Afeganistão. O projeto passará no plenário da Casa, como já passou na comissão de Constituição (!) e Justiça (!!). O senador será aplaudido pela mesma população que hoje exige a demolição da Fonte Nova e por seus iguais nos outros 26 Estados da Nação. Sim, porque burrice pernóstica não é exclusividade dos soteropolitanos. *** O governo brasileiro considera a causa ambiental uma questão de prioridade Z. Com isso, enche a bola de gente que andava enrustida, conspirando na moita, e agora busca os holofotes e fala grosso com quem quer que questione desmatamentos, grilagens e quetais, mesmo que seja o ministro que tem um salário mensal para exercitar esses questionamentos. A UDR renascerá, quem diria, pelas mãos do governo do PT. Sugiro que se convide Ronaldo Caiado para o lugar de Carlos Minc. *** O consolo é que um dia acaba. De um jeito ou de outro. 8.6.09
O tempo e os sabores
Marron-glacé Costumo dizer a minha filha mais nova que paladar é algo que muda e se aprimora ao longo do tempo. Eu odiava marron-glacé, quando era menino, para desespero de meu pai, que certamente pensava nas quantas boas coisas da vida eu iria deixar de apreciar, junto com a sobremesa francesa à base de castanhas. Minha filha odeia pão integral com kümell. Acho que é assim também no cinema. Uma das coisas que mais abominei na vida foi ver na TV, em preto-e-branco ainda, com 8 ou 9 anos de idade, um filme de Federico Fellini, acho que era Oito e Meio. Na verdade, vi um pedaço apenas: provei e não gostei da iguaria. Anos depois, Fellini se tornaria uma referência para mim. O inverso também acontece: criança, eu adorava baba-de-moça, aquele doce que faz doer as têmporas de tão doce. Hoje, não posso ver. Ameixa em calda me causa repulsa. Aos oito anos, me fazia lamber os beiços.
Laura Não foi assim tamanha a mudança de gosto, mas outro dia, vendo um dos meus filmes prediletos -- e que não via há uns vinte anos --, tive um pouco da sensação de que o sabor já não era o mesmo: "Laura", de Otto Preminger, embora seja ainda um dos mais belos do meu cinema pessoal, deixa hoje entrever os cacoetes do film-noir e seu tempo, a começar pelo roteiro. Aqueles filmes do fim dos anos 40 tinham, de fato, roteiros cujo charme era uma certa imprecisão ou inverossimilhança, como se o roteirista tivesse, à moda de Dashiell Hammet, tomado uma garrafa de gin enquanto escrevia. Em "Laura", não há nenhum problema na hora em que um personagem suspeito de um crime propõe ao detetive que o investiga acompanhá-lo ao interrogatório de um outro suspeito. Tampouco que este detetive durma na suposta cena do crime e ali se embriague sozinho. Quem assistiu a "Relíquia Macabra", do monstro John Houston, com Bogart no papel de Sam Spade, verá uma linha de roteiro semelhante. Não à toa, baseado no "Falcão Maltês", de Hammet. Mas há em "Laura" encantos eternos. A começar de Gene Thierney, linda, charmosa e dirigida por Preminger, na linha de passar por cima das caras e bocas de seu tempo. Dana Andrews, então, o detetive, é quase gélido em sua expressão. A música tema, de Dave Raksin, é uma daquelas que a gente ouve sem parar, a vida toda, e segue se encantando. "Laura" é uma canção que me faz respirar melhor.
O ano passado em Marienbad Outro filme que vi depois de décadas, foi "O ano passado em Marienbad", de Alain Resnais. Vi o filme nos anos 70, no auditório da FGV, e me lembro de ter achado aquilo uma esquisitice sem tamanho, até porque dormi em boa parte da exibição. Aluguei "O ano passado" para tirar a limpo a impressão passada e foi muito engraçado: parecia rigorosamente outro filme. O que eu via antes de revolucionário -- cortes sequenciais em que, na mesma cena, os personagens mudavam de figurino, detalhes de trilha sonora surpreendentes, cenografia inesperada, juntando interiores cheios de cristais com estátuas clássicas -- me pareceu imensamente afetado ao ver hoje. Os diálogos entre os personagens anônimos de um etéreo, asséptico e mental triângulo amoroso, os não diálogos montados pela repetição de certas falas e situações (como a do jogo de baralho invariavelmente vencido pelo mesmo jogador, uma das pontas do tal triângulo), a teatralidade de todos (prenunciada no início do filme, em que um longo travelling, por dentro do palácio-hotel que será o cenário da não-trama, termina em um palco, e vê-se que as falas que servem de fundo à cena são as falas dos atores), tudo tem o exagero daquilo que, por ser inovador, precisa se reafirmar também no antigo. O tempo simplificou o sabor de "O ano passado" e apurou o de "Laura". Isso reforça o que os velhos leitores sempre me diziam: há uma época na vida em que reler é tão importante quanto ler. 1.6.09
Sensação de esparadrapo
Desde muito pequeno tenho uma sensação esquisita que, na falta de nome melhor, batizei de "sensação de esparadrapo". É mais ou menos assim: quando acontece uma tragédia, seja próxima, como a morte de alguém conhecido, seja distante, como o incêndio do Edifício Andraus, que implique perda grave ou definitiva, passo um ou dois dias com a sensação de que há algo em mim que está machucado, mas em recuperação -- exatamente como se eu tivesse um curativo aplicado em alguma parte do corpo, sem definição muito clara de onde. Esse avião da Air France me dá uma baita sensação de esparadrapo. Me sinto machucado, tento entender por que, e lá vem a explicação da memória: é a tragédia recente, ainda cheirando a assepsia, a corredor de hospital. A sensação de esparadrapo é o extremo oposto daquela que vem quando uma alegria prazerosa nos invade a memória, como um pé-de-vento no calorão da fazenda. O sorriso involuntário na manhã depois da primeira noite com o primeiro amor, ganhar a rua depois da primeira tarde no MoMA, colocar no banco o primeiro salário, na época em que ele era uma fortuna. Hoje, foi inevitável passar o dia com a velha sensação de esparadrapo. Acho que fazia tempo que não tinha uma dessas. O consolo racional é que eu sei que passa. Mas a sensação é de que fica, como tatuagem. 48 horas. É tudo o que eu preciso. Até lá, curativo. 29.5.09
Da musa recorrente Morena ou esguia ou santa ou cafusa ou livro de história ou letra recente: nada mais constrangedor do que uma musa, aquela entidade que obriga a gente a confessar o que vai sob a blusa, a escrever no papel, incontinente, a palavra que ficaria reclusa, não fosse a musa e a língua no dente. Pior se a inspiradora é uma só. O tempo voa, mas ela é a terra, um mito grego ou bíblico, um Jó. É dela todo afeto que se encerra no peito (que já vai virando pó) a maldizer o cérebro que erra. 26.5.09
Tolerância
Passamos dias sem quase dizer palavra. Contemplação, não tédio. Sacrifício zen, passamos os mesmos dias (ou quase) sem nos tocarmos. Olhares apenas, talvez aura se encostando aqui e ali. Domínio absoluto. Só quando nos demos conta da inutilidade da conquista é que renunciamos. Eu lasquei um dente na afoiteza, nós dois acabamos nos arranhando um pouco, eu poderia ter evitado a terceira mordida, ela acabou ressonando com um maço de meus cabelos na mão esquerda. Mas foi bom parecer de novo mediano e comum. |