dito assim parece à toa

28.1.10

Reclusos



Morreu J.D. "Catcher In The Rie" Salinger. No fundo, ele era o que eu quis ser um dia: um escritor que alcançou sucesso na primeira obra e se tornou recluso.

Salinger vivia numa fazenda, com uma mulher bem mais nova, há décadas afastado de qualquer contato com a imprensa ou os meios literários. Depois de "O Apanhador no Campo de Centeio", ainda publicou mais quatro livros, obviamente nenhum com a repercussão do primeiro. "O Apanhador" ainda vende mais de 200 mil cópias por ano, é um best-seller eterno.

A versão brasileira de Salinger parece ser o escritor paulista Raduan Nassar. A diferença está no fato de que, embora tenha feito um tremendo sucesso de crítica com "Um Copo de Cólera" e "Lavoura Arcaica", não ficou rico. Mas foi pro sítio também.

Acho que deve ser difícil para quem arrasa no primeiro trabalho fazer o segundo e o terceiro e assim por diante. Acho que é por isso que eu não faço o primeiro. Como não dá para começar pelo segundo, considero-me vítima da minha própria genialidade. Pior: nem sítio eu tenho. Será que se eu pedir asilo em Roma eles concedem?

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15.1.10

Sobre um ano novo



O que é um janeiro que nos leva a doutora Zilda Arns? Que nos leva São Luís do Paraitinga? O que é esse castigo ao Haiti? Que pedagogia divina pune os já secularmente punidos? Que mundo é esse de 2010?

Zilda Arns provou algo muito importante para o Brasil: alguém tem de começar a resolver um problema para que ele seja resolvido. Parece óbvio? Sim, tanto quanto é óbvio o sino no pescoço do gato. Soro fisiológico salva crianças de desidratação. Mas quem pendura o sino? Zilda Arns fez sua fábula salvar vidas. Reduziu a mortalidade infantil em regiões pobres do Brasil a índices quase civilizados. Estava aplicando isso no Haiti, décimo primeiro país que decidiu ouvi-la, quando a terra a levou.

O que isso significa?

Sim, parece o fim do mundo. Na verdade, é, se nos colocarmos no lugar de um haitiano médio. Ou se pararmos para pensar em São Luís do Paraitinga.

Mas o fim do mundo não foi em 1967, quando a Serra do Mar soterrou Caraguatatuba? Ou quando um louco e/ou seus amigos conspiradores mataram o primeiro presidente americano nascido no século 20? Ou quando El Niño e La Niña resolveram dar o ar da graça?

Vivemos mesmo -- e às vezes devemos parar e prantear -- o fim do mundo. Mas há sempre os sinais de recomeço, que precederão de novo o fim, e de novo o recomeço.

Já que é assim, coragem. Não a de enfrentar terremotos, o que não depende de nós. Mas a de ser um pouco dona Zilda e ter a certeza de que o mundo tem sempre um jeito antes de ter um fim.

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5.1.10

Mensagem de ano novo



Desejo a todos o que todos desejam para um ano novo: saúde, sucesso, sexo e, se possível, alguma grana pra gorjeta. Mas isso é genérico, todo ano todos desejam algo parecido para todos. Para 2010, quero ir além, quero ir ao específico. Aí vão, portanto, alguns desejos para 2010.

- Que os chatos se tornem de uma vez uma espécie ameaçada e que terminem, não o ano (não sou tão otimista), mas quem sabe a próxima década existindo apenas em zoológicos, como os pandas. Aí, quem quiser que vá lá para ver como eles contam detalhadamente como vão, sempre que perguntados, como eles sempre conhecem e antecipam o fim da piada alheia, como eles infernizam a vida dos funcionários do zoo com suas histórias pessoais sem graça.

- Que a Divina Providência extinga jornalistas brasileiros de qualquer idade ou origem que comecem seus textos ou mesmo frases dentro deles com a expressão "Ok". Afirmações como Ok, o ministro Lobão pinta o cabelo, mas quem não pinta? ou Fui chamado de veado! Ok, a culpa é minha, mas não precisava serão punidas de acordo com a lei do Talião (olho por olho, dente por dente), com um potente chute no saco.

- Que a bondade dos céus ensine às pessoas de boa-vontade, definitivamente, que "assertivo" não é o sujeito que está sempre certo. Da mesma forma, que seja a eles revelado, com um facho (e não um "faixo") de luz que não existe a palavra "acertivo", muito menos a horrorosa "acertividade", ambas hoje tão comuns entre jovens e promissores executivos de média gerência e tenra idade. Se der muita vontade de falar a bobagem, que façam como o fumante abstêmio, que substitui a tragada por um gole d'água: que usem o saudável e castiço "certeiro" para designar aquele que acerta tudo, deixando para aqueles que afirmam de forma peremptória e convicta o adjetivo que sempre foi deles.

- Que, de uma vez por todas, sejam tragados por uma rachadura ardente e levados diretamente aos subterrâneos de Moema todos aqueles, famosos ou não, louros ou morenos, brancos ou pretos, pobres ou ricos que votem ao semelhante algo tão bizarro e escatológico como "um beijo no coração".

Será pedir demais?

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